Mês: maio 2016

Granja Santa Felicidade – minha casa em Recife

 

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Laís de Souza Antunes e Ruy da Costa Antunes.

Meus avós maternos.

Vivi com eles um período riquíssimo.

Fui para Recife após todas as alternativas de alfabetização em Campo Grande se esgotarem.

A casa de meu avô ficava fora da cidade do Recife, em Camaragibe, numa área serrana, um pontinho de mata atlântica chamado Aldeia.

Na Granja Santa Felicidade, Km 13 da Estrada de Aldeia, vivi coisas mágicas. Desfrutei de liberdade total. Desbravava a região com a bike que meu avô me dera.

A casa era bem grande, antiga. Tinha pé direito alto, uma sala enorme e obras de arte de todo tipo: pinturas, esculturas, coleção de xícaras de porcelana antiquíssimas dispostas em mobiliário igualmente antigos.

Na Granja Santa Felicidade, todo domingo era dia de grande festa. Algo tradicional. Os amigos começavam a chegar no meio da manhã, o almoço saía por volta das 16h, e às vezes a festa acabava perto do raiar do sol.

Meu quarto ficava entre o de meu avô e seu gabinete. O gabinete era um salão imenso, dotado de prateleiras que partiam da altura do chão e iam até o teto, nas quatro paredes, repletas de livros de toda natureza.

De um lado, no gabinete, quando ele varava noites escrevendo em sua IBM, eu ouvia o teclar rápido e preciso de quem quase não erra. Digitava rapidamente e só com os dedos indicadores.

Do outro lado, quando ele finalmente dormia eu convivia com o medo que seu ronco produzia em mim, mas só de vez em quando….

Em todo canto naquele lugar, pra onde olhássemos, havia um penduricalho, cocares, arcos e flechas, cumbucas com apitos de caçadores de passarinho, uma aparelhagem de som de respeito, muitos discos, muitos.

Ali, meu amado avô Ruy forjou minha base cultural, apresentou todos os tipos de música disponíveis no seu acervo (imenso e variado), apresentou as mais diferentes formas de expressão artística que pode me mostrar nos livros de diversos museus de arte de tudo o mundo. Ensinava a reconhecer e diferenciar uma coisa de outra, para no fim fazer sempre o mesmo questionamento:

“Neto, gostou mais do quê?”

Então eu dizia do que havia gostado mais. E ele então perguntava:

“Explique porque.”

As lembranças são tantas e tão ricas…

Sinto meu avô comigo sempre que escrevo. Por vezes invoco sua serenidade para argumentar assunto delicado ao teclado… e ele está sempre ao meu lado.

Minha avó Laís é um anjo de luz. Uma figura à parte. Não se compara com gente comum nem com gente especial. Foi uma pessoa única, singular e preciosa. Luz pura.

Está começando a ficar difícil esse relato. Vou trazer algumas histórias em outras ocasiões.

Por hoje só me resta agradecer à Deus por tudo isso.

Graças a Deus.

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo
jhmirandasa1931@outlook.com
(67)8126-4663

 

Bofetada – Consulado campo-grandense no Rio de Janeiro

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Campo Grande, 29 de abril de 2016

Bofetada.

Podemos classificar o botequim sito à rua Farme de Amoedo, Ipanema, “Consulado” dos campograndenses desterrados no Rio de Janeiro, velho e bom Estado da Guanabara.

A referência ao nome antigo do estado deu-se inspirada na atmosfera e época congelada no “instantâneo” que ilustra a breve homenagem.

Entre os anos 80/90 e 2000, o campograndense era recebido no Bofetada com visível distinção em relação ao público local. Dizia o dono do bar que não havia como fazer fiado ou outra concessão qualquer, exceto para “os meninos de Campo Grande”.

Eu que vivi curta temporada no Rio, menos de um ano, e morava em Botafogo, portanto ia com pouca frequência ao bar – comparando com a moçada que morava por ali – tive o prazer de ter um cheque descontado “na boca do caixa”… do bar!

Mero desconhecido, bastou que eu comprovasse minha “procedência” exibindo folha de cheque de agência em Campo Grande, pra que eu desenrolasse uma grana em plena madrugada. Estávamos em 1993 e não havia tanta facilidade quanto hoje em termos de serviços bancários.

Dedico essa homenagem ao dono do Bofetada e as pessoas de Campo Grande pela confiança que inspiram onde quer que estejam.

Parabéns, Bofetada.

Parabéns, galera!

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo
jhmirandasa1931@outlook.com
(67)8126-4663

Imagem: Rio de Janeiro Memória&Fotos (Facebook)

Partiu Didi – minha avó

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Campo Grande, 30 de abril de 2016

Ele ainda era um menino, um rapazote… uma criança grande, vai.

Vinte e poucos anos e nenhum juízo. Já se sentia “um homem”, por não compreender o mundo que o cercava, e por não compreender a si mesmo, usava todos os recursos à mão que o levassem a experimentar outras formas de percepção.

Tal e qual um pequeno pet recém-nascido, tinha os “olhos” cerrados. Ainda nem desconfiava as respostas para a questão mais crucial e essencial da vida: “origem, destino e missão”. Vivia intuitivamente.

Desde muito, muito novo criou carapaça dura e espinhenta que o protegesse das agruras do duro convívio com pessoas de todo tipo. Sentia-se em ambiente hostil e cercado de riscos potenciais à sua sensibilidade natural. Tinha consciência de sua “cegueira”, de ser parte da “cadeia alimentar”, sabia estar vulnerável.

Numa das muitas noites de festa (àquela altura, a festa nunca cessava) viveu as consequências mais duras do conflito entre a busca de melhora – já sabia da necessidade de se tratar, e usava psicotrópicos – e a sede de torpor e anestesia, sucumbiu à tentação e fez a maldita mistura. Bebeu, e bebeu muito, mesmo estando medicado. A receita da tragédia estava aviada, o desfecho de uma noite triste era questão de tempo.

Quatro da matina ele sai da boate com os amigos numa fila indiana, uma discussão besta entre um dos amigos que seguia a sua frente e tinha tudo para acabar assim como começou, do nada. Mas não. Ele que mal conseguia manter-se de pé, quase não conseguia pronunciar as palavras, toma as dores do amigo e enfrenta o homem que ele discutia, com a arrogância e displicência de todo incauto.

Ele, meninão grande, sabia ser ruim quando o assunto era briga. Acostumado a bater, e bater sem dó, naquele dia experimentou todo tipo de humilhação que já impusera aos seus oponentes até ali.

Ele apanhou, teve o cano de uma pistola colocado na sua boca, foi dominado e teve o rosto esfregado nas canetas pretas de carvão do que restara de uma moita de colonião que havia sido consumida na queimada daquele lote. Dois furos e um corte (diferente de um rasgo) em sua camisa indicavam que outras armas haviam sido sacadas na confusão.

Naquele dia ele recebera, com juros e “correção”, muito do mal que a outros impôs. Atravessou naquela noite, espécie de portal que o fizera entender que sua conduta era inaceitável. Que daquela forma, não poderia permanecer.

Socorrido por um amigo que se compadeceu com a deprimente cena da “briga”, convenceu o agressor a dar fim a sessão humilhante de sova e levou-o para casa.

Aquele meninão valente, enfim recebera uma lição.

Entrou em casa e só ao olhar no espelho do banheiro se deu conta da dimensão da surra que levara. Seu rosto estava preto de carvão, todo ralado, viu o corte na camisa como se fora um profundo ferimento n’alma… e era. Foi demais pra ele.

Decidido, foi até a biblioteca, pegou a doze de cano serrado duplo, municiou com dois cartuchos, escondeu-se entre duas estantes com as costas na parede. Ajoelhou-se e colocou os canos da arma na boca, engatilhou os dois cães e segurou firme o segundo gatilho (disparo duplo e simultâneo).

Prestes a dar um fim precoce a sua existência, ouve as palavras pronunciadas em prece, bem baixinho, pedindo por todos da família. Era Didi, sua avó que fazia suas preces andando pela casa, três vezes ao dia: na alvorada, perto do almoço e as seis da tarde. Ela pronunciava quase de forma quase inaudível o sentimento mais lindo, aos seus ouvidos, no entanto, soaram como um estrondo salvador. A fé e o amor de sua avó, demoveu-o da ideia tresloucada de puxar aquele gatilho.

Sua avó, naquela alvorada, trouxe-o à luz. E mais uma vez, em outra alvorada, ele renasceu.

Ontem de noite, aos 101 anos muito bem vividos, Didi desencarnou.

“Ele” agora escreve em prece e grato por tudo que ela ensinou. Pela convivência e por tudo… tudo.

Antes do AVC acamar Didi, três anos atrás, nos sentamos à mesa, depois do almoço (ela me contava histórias de sua infância!!), e tomando um cafezinho eu lhe contei a história acima, da mesma forma que contei aqui. Na terceira pessoa. No fim, ela aos prantos, soluçando, não se conteve e disse: “Que história linda! De onde você tirou, meu filho??”

Então eu pude abraça-la e agradecer por ter salvado minha vida num momento de vergonha, desespero e descontrole. Nos abraçamos fortemente e celebramos estarmos juntos. As diferenças que havia entre nós, todas elas, ali evaporaram, dissolveram-se na gratidão mútua.

A relação de avó e neto converteu-se numa amizade pura, despida de censura e repleta de cumplicidade.

Toda vez que Didi ouvia o som de um avião no céu ela dedicava seu desejo, hoje eu dedico o mesmo a você, minha avó:

“Deus te dê boa viagem! Deus te dê boa aterrissagem!”

João Henrique de Miranda Sá

Onde você busca respostas?

 

 

 

Há relação direta entre o universo que habitamos e compomos e o universo que nos habita e somos.
 
As resoluções e decisões, pensamento e palavras, gestos e atos, são manifestações do universo interior que interferem diretamente, tanto no universo exterior – pois edificam a vida e os fatos – quanto nos encontros e desencontros; realizações, e fracassos; de quem decide, pensa, fala  e age.
 
Assim sendo, a manifestação dos bilhões de indivíduos, constrói, edifica e materializa – com tudo que parte de dentro pra fora – o universo material no qual estamos suspensos.

Contemple o universo exterior, mas as respostas todas que o farão mais lindo e perfeito, estão aí dentro. No mais íntimo e vasto universo interior.

Onde você busca respostas?

 

Aniversário do Comandante L.S 2016- 78 anos

 

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Campo Grande, 19 de maio de 2016

Ao meu pai, Luiz Salvador de Miranda Sá Júnior.

A vida da gente é uma breve e transformadora viagem.

A família, ao meu ver, consiste na mais essencial empresa coletiva na qual nos cabe o lavoro. É nela, leio, encontrar os maiores aliados e também os mais instigantes e compensadores desafios.

Minha formação evangélica foi fundamental na compreensão do grande arranjo divino que consiste a chamada “Constelação Familiar”.

Muito cedo questões essenciais martelavam meu matutar, sem respostas plausíveis. Dei início a minha busca por respostas que iluminassem onde fosse necessário a compreensão das coisas.

Antes disso, intuitivamente, já era claro pra mim que eu estava sim, no lugar exato do planeta, inserido no núcleo familiar mais indicado dentre todos os outros que compartilham o mesmo tempo na Terra.

A coisa mais linda que vejo neste arranjo (a família em si) é que cada qual traz de sua longa jornada, além dos objetivos individuais, metas pessoais, e o fato de estarmos historicamente ligados e empenhados em resolver assuntos pendentes de jornadas outras, tempos outros, aqui e agora.

Bom, esse é meu ponto de vista.

Hoje, nosso patriarca faz aniversário, lá se vão 78 anos.

Pra muitos colegas, sejam eles enfermeiros, porteiros, zeladores, médicos, psicólogos, gestores, meu pai é o “Dr. Salvador”; pra centenas de profissionais de áreas diversas é um sábio e generoso Professor, ou “o Mestre!”; pra muitos, apenas… um pesadelo, um professor exigente demais a quem só querem esquecer; pra milhares de pacientes seus, uma bênção, um conselheiro maluco, um bom amigo, uma tábua se salvação, mão estendida que por vezes afaga, por vezes dá boas “palmadas” teóricas… e muito mais.

Entre ele, meu pai, e eu, João Henrique, há uma relação muita rica, honesta e mutante. À medida em que vou galgando, com dificuldade, os degraus improváveis de um amadurecimento singular, me transformo, transforma-se o mundo, transforma-se o conceito de pai.

Percebo a evolução de um indivíduo como uma espiral que sobe verticalmente desenhando trajetória semelhante ao looping realizado por um avião. Pra mim, a jornada de cada um de nós é uma sequência muito doida de loopings rumo ao Alto.

Nessa manobra constante da alma, cada volta desenha e demarca o que convencionou-se chamar “degrau evolutivo”.

Fosse plano tal degrau, seria constante nosso comportamento, ações, reações, seria reta (como o degrau) nossa atuação no vidão. Looping que é, explica bem claro que cada um de nós é capaz, dependendo da vibe, acertar ou não na escolha que se faz, uma vez que amplitude entre o melhor e o pior de cada um de nós pode ser medida entre a base e o cume do tal degrau, que não é degrau, o looping espiritual.

Imaginem agora que beleza seria o desenho formado dos loopings realizados pelos membros da família. Cada qual na sua toada, cada um com sua função nessa “esquadrilha do amor”.

Temo que minha mensagem tenha se perdido em meio às analogias diversas, mas o que eu sei mesmo é que meu pai é o “Comandante” que me deu base, a instrução, e os meios pra que eu pudesse me colocar na cabeceira da pista, seguro e sabedor de que tenho em mãos um excelente “avião”, de alçar voo pra manobrar no universo, independente do humor do clima, ventos ou chuva.

Meu amigo, meu pai, meu Comandante, desejo a você bom voo “e todo amor que houver nessa vida”.

“Senta a Pua!” 😀

Eu estarei sempre por perto.

Parabéns e muito, muito obrigado por tudo!

Seu filho,

João Henrique de Miranda Sá