Mês: outubro 2016

Galera Pró

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“Um compêndio de psicologia e psiquiatria”, essa é a resposta que obtenho de minha psicóloga, Alexandra, quando movido pela inútil necessidade de rotular meu ser, questiono-a acerca da criança que fui, qual era meu diagnóstico.

E ela está absolutamente correta ao me dar uma resposta, sem ser técnica, afinal, de que serviria pra mim saber mais do que ela já disse? Ela me demonstrou, ao longo do tratamento, que os rótulos pouco importam quando o assunto é autoconhecimento. Mesmo porque, quando se investe nesse processo, aceleramos a dinâmica do desenvolvimento, e muito traço se transforma, muito mito cai, muito mal se cura…

Na Campo Grande dos anos 70, em pleno século XX, crianças como eu, não encontravam aqui escola capacitada para alfabetizá-las. Mas como “como eu”? Fui uma criança agitada, com sérios problemas de coordenação motora, déficit de atenção e hiperatividade, vai vendo.

O Colégio Dom Bosco sempre foi referência de bom ensino, disponível pra poucos devido ao alto custo das mensalidades. Filho de família abastada, pude tentar estudar ali… tentar.

Aos seis ou sete anos, no que se chamava Pré-primário, eu dava muito trabalho aos padres, professores e devia ser um inferno pros colegas. Aproveito a ocasião pra dizer a todos que só posso lamentar o transtorno e dizer que valeu a pena, obrigado a todos pela paciência.

Menino infernal, fazia só o que queria, não parava quieto. Pedia pra mãe pra levar a bicicleta pra aula (…) e ai dela se ela não colocasse a bendita bike no porta-malas da Veraneio, e a deixasse comigo na escola. Pra quê… me lembro como hoje: minha sala era a primeira sala que há no primeiro corredor à esquerda de quem entra pelo portão principal do colégio. Em frente à essa sala, ficam as quadras poliesportivas. Havia rente à grade um bicicletário, ali eu deixava minha Monareta. E ficava a olhar pra ela enquanto as atividades transcorriam normalmente na sala.

Meu mundo era só meu. Não havia autoridades ou regras, havia meu desejo e interesse; havia curiosidade e criatividade surpreendentes; havia muitas feridas, devido ao fato de ser desajeitado, eu me machucava muito – logo, havia vergonha e baixa autoestima, pois sempre tinha um infeliz pra dizer “lá vem o zé pereba” … hoje chamam bullyng.

Conta minha mãe que, se ela se atrasasse um pouquinho, já não me encontrava mais na escola. É, saíamos todos e ficávamos ali na calçada à espera dos pais, se os meus não chegassem, eu pegava o rumo de casa! Seis anos!! Ia do Colégio Dom Bosco, na Avenida Mato Grosso entre as ruas 13 de Maio e 14 de Julho, até a rua Sete de Setembro, na altura da rua Bahia, onde eu morava (moro até hoje.

Minha velha já conhecia meus caminhos. Ela, com meus irmão no carro, saía a minha procura e ia encontrando abandonados pelo caminho, primeiro a mochila, depois a camisa, mais à frente as botinhas Ortopé… e lá adiante encontrava a criança livre que pude ser.

Obrigado, Senhor, pela liberdade de que fui dotado. Obrigado, meus pais, por permitir que eu a exercesse.

Belo dia, na saída da escola, minha mãe deu falta de mim, antes de iniciar a busca pelas ruas, checou dentro da escola, naturalmente. Quando ela chega perto da minha sala, havia um padre possesso, a praticamente a me erguer pela orelha e a fazer uma tentativa de exorcismo, ali, no pátio da escola bradando “Este menino é um demônio!!! É um demônio!!”, e minha velha se identificou. Ouviu do padre, sutilmente, que eu estava ‘convidado’ a me retirar da escola, sutilmente…

A essa altura, 1977, não havia mais alternativa a recorrer que desse cabo de minha alfabetização em Campo Grande. Após criterioso estudo e pesquisa, meus pais souberam de uma profissional que tinha sucesso em casos semelhantes ao meu… em Recife.

Lá fui eu desterrado na casa de meus avós maternos pra viver os anos de minha vida que classifico “mágicos” e fundamentais na construção do homem que ora escreve. Na direção que dou à minha vida, às minhas resoluções, ao meu gosto pela arte, música e pelo belo.

Em Recife eu tinha uma rotina puxada. Como minha casa era fora da cidade, na região serrana de Aldeia, eu saía cedo com o motorista e o restante das pessoas que “desceriam à cidade”, pra cumprir minha rotina de natação, psicóloga, escola, escola de artes… etc. Nas janelas que havia no meu itinerário, eu fazia companhia ao motorista da vez nos afazeres dele. Sempre passava no escritório do meu avô Ruy, um lugar, um ambiente à parte, atmosfera única.

Passei dois anos, aproximadamente em Recife. Já estava totalmente ambientado até que num telefonema, a falar com D. Julita, minha mãe, ela contava dos preparativos para as férias; dizia que meus irmãos e mais alguns amigos fizeram um carrinho de rolimã todo especial pra mim, só pra eu brincar nas férias… como quem joga um balde de água gelada na pessoa, me saí com essa: “Ah, mãe. Não vou dessa vez. Minha casa é aqui. Vocês venham me visitar, não quero ir…”, silêncio abissal do outro lado da linha por alguns segundos interrompido pela frase seca: “Filho, chame sua avó, por favor”. Vó Laís mal terminou de dizer “Alô..” e já ouviu o decreto seco: “Coloque meu filho no avião de volta pra casa amanhã!”.

Ali ela colocou ponto final naquela que foi a fase mais rica de minha vida, a que vivi com os seus, os nossos, que pude ter meus, seus pais, perto de mim meus tios, gente gente. Saudades.

Voltei a Recife diversas vezes na juventude, principalmente pra brincar carnaval em Olinda…

Numa noite, num bar, aconteceu coisa curiosa, e que justifica eu contar tudo o que foi descrito acima. Estávamos numa grande mesa, num bar badalado, chique, e havia gente da cidade, turistas e eu, que não era nem uma coisa nem outra. No afã de se conhecer, se localizar e encontrar antigos colegas, todos diziam onde tinham estudado, trabalhado, de que família eram… aquelas coisas.

Dado momento eu digo que já morara na infância e estudara na cidade. Uma moça quis saber onde eu estudara, inocentemente eu lhe disse: “Estudei na Escola Parque de Boa Viagem”, gargalhada geral!! Muita gozação, risos e mais risos.

Sem entender direito o porquê de tanta risada, pedi que me explicassem qual era o motivo da graça. Então alguém me disse: “Liga não, Dão. Todo mundo mexe com a moçada que estuda lá. Diz-se que lá estuda a ‘galera pró’.”… Insisti, por quê “pró”? E a moça esclareceu: “Galera ‘pró’blemática, Dão!”, mais risos, muitos risos.

Numa ocasião pude entrar numa comunidade do Orkut de ex-alunos da dita escola, pensei que fosse dar de cara com uma fauna estranha, que nada! Só criativos! Fotógrafos, publicitários, muitos músicos, escritores… E eu me senti em casa… E eu me orgulho da minha Escola Parque de Boa Viagem.

Eu me orgulho de ser mais um da “galera pró”.

Os Aspectos da Crítica – Os extremos de uma linha

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Os Aspectos da Crítica

Os extremos de uma linha

Há quem considere que a crítica, ou mesmo ser criticado, seja algo ruim.

Às vezes, ser criticado é desagradável, porém toda crítica é boa.

A boa crítica sempre traz em si sugestão de melhora além da indicação de deficiências, exageros ou inadequações.

Ocorre que muitos de nós, mais ou menos, somos apegados ao fruto do próprio trabalho. Eu sou apegado e luto para anular isso.

Na extensão de uma linha só, residem, num extremo a boa crítica, noutro extremo o comentário maldoso.

A primeira serve de guia ao trabalho, ilumina aquele que produz. A segunda revela o caráter de seu emissor, por isso, justamente por isso, é igualmente ‘boa”.

O bom crítico sempre está em busca do potencial sob a deficiência ou fragilidade, já os outros apenas buscam falhas a salientar, pura e simplesmente fazer uma comparação com o “gabarito da perfeição’ que julga conhecer.

Sempre trabalho ouvindo a opinião das pessoas. Não! Não é fácil.

Conviva com a crítica. Sorva a crítica, bocheche e deguste tal e qual quem prova um vinho, um néctar.

Mais que saber do seu próprio trabalho, vais conhecer a fundo as pessoas.

Bom fim de semana.