Autoconhecimento – Exercício Diário II

Há alguns dias publiquei algumas impressões acerca do processo de autoconhecimento. A reflexão de hoje não é diferente, só que irei um pouco mais fundo, assunto instigante e desafiador: a característica dual e ambígua do ser humano.

Faço terapia há mais de sete anos. Experimento um momento de franco desenvolvimento. Não tenho dúvidas de que esse avanço no processo deve-se à superação da dependência química, ou seria o contrário? Sei lá.. Nesse período da drogadicção era muito comum que eu omitisse fatos importantes ou, até mesmo mentisse descaradamente nas sessões, comprometendo muito o tratamento, perdendo um tempo valioso da terapeuta e meu também.

O processo do autoconhecimento traz surpresas. Existe muita diferença entre o que somos e o que gostaríamos de ser. Muitas vezes achamos que conhecemos uma pessoa e o tempo mostra que ela na realidade não é nada daquilo. Esse processo de idealização é constante, idealizamos viagens, lugares, festas, pessoas… idalizamos a nós mesmos!
As surpresas começam logo que consegue-se separar as coisas, e logo notamos a diferença entre o “eu ideal” e o “eu real”. Muitas sensações decorrem dessa surpresa, alento, conforto, segurança, alegria e, também, negação, desconforto, decepção, raiva etc.

Sabendo que o ser humano é multifacetado, que traz cada um uma gama enorme de características e traços particulares, ficamos mais tranquilos para lidar com essas descobertas. Baseado em sua experiência o terapeuta te ajuda, na medida do possível, a lidar com essas novidades. Teoricamente, não vou deixar de ser quem sou porque agora me conheço melhor, ou conheço melhor minha realidade.

Nos submetemos à terapia com o intuito de melhora, para aplacar algum sofrimento, para vivermos em paz aprendermos a amar e cumprir o ciclo vital. Gozar da melhor maneira possível, cada fase, cada ciclo. Esse desfrute, esse gozo, não se faz automaticamente e não é fruto exclusivo do autoconhecimento. mas do esforço que se faz para explorar as qualidades, outrora desconhecidas, e de melhorar o que tem que ser melhorado. É o esforço, e nada mais, que nos faz pessoas melhores. Posso muito bem chegar ao ponto de saber exatamente quem sou, como sou, se eu nada fizer com essa informação, nada mudará.

Outra parte do processo de autoconhecimento que é muito valioso é o que chamo de “reconhecimento de área”. Nada mais é do que a análise dos mais variados contextos aos quais estamos inseridos, familiar, emocional, profissional etc.
É uma coisa óbvia que a pessoa bem resolvida se relaciona melhor com a coletividade. O homem habita o meio e com ele interage, e este, por sua vez, reage, devolve a ele aquilo que dele recebeu. Simples assim.

Ainda há um longo caminho a percorrer. Muita coisa a descobrir e muito esforço a fazer até que eu experimente a plenitude e a independência absoluta, a maturidade, enfim.

Até lá, vou me organizando, na medida do possível, lidando com cada “grilo” de uma forma suportável, no meu tempo, sabendo que o ponto de partida ficou para trás há anos, e que os obstáculos superados até aqui me permitem curtir o início de um desabrochar que já me enche de alegria e otimismo.

Autoconhecimento: Exercício Diário

Foi refletindo sobre minha vida e os acontecimentos recentes, também sobre as consequências de cada um deles em meu dia-a-dia que fui tomado pelo impulso de escrever.

Ninguém tira da minha cabeça que esse exercício de autoconhecimento é fruto dos mais de sete anos de psicoterapia.

Confesso que tenho praticado com muita frequência a reflexão, mas, há meses que não escrevo, não sei dizer o porquê. Adoro refletir, e mais ainda escrever. É uma forma que encontrei de organizar aquilo que muitas vezes ocorre como um turbilhão de pensamentos.

Escrever é uma forma de organizar tudo, literalmente colocar tudo no papel, fica mais fácil de analisar e, também, de compreender as pessoas, situações e contextos. Invariavelmente sou levado a um sentimento de grande bem estar, mesmo que a conclusão não seja a mais agradável ou confortável.

Quando começamos a compreender um pouquinho sobre nós mesmos e o contexto ao qual estamos inseridos, é
sinal de que já se percorreu um bocado na estrada do autoconhecimento.

Quando saí da completa escuridão, e a luz foi se fazendo ao meu redor, por muitas vezes a saída diante da estranheza do que eu percebia, era a negação. Acredito que, em muitos casos, a negação seja um estado intermediário entre a mais pura ignorância da coisa e a aceitação da mesma.

O autoconhecimento é caminho cheio de surpresas. Umas agradáveis e outras nem tanto. Todas elas são boas, já que são luzes que se fazem envolta da gente, que vão ampliando seu diâmetro, nos permitindo conhecer a nós mesmos e o contexto no qual estamos inseridos.

Vai se tornando crucial nesse processo conhecer também as outras pessoas, suas atitudes e posturas, seus prováveis motivos. Passamos aí a compreender melhor as relações das quais fazemos parte.

Em todo esse processo, ajuda muito, mas muito mesmo, o exercício do auto-perdão, em seguida, o perdão que devemos ao próximo. É claro que só posso discorrer a respeito baseado em informações coletadas em experiência própria, talvez com as outras pessoas ocorra de maneira diferente, nunca fui e nem pretendo ser modelo de nada nem de ninguém.

A credito que se não se chegue a este ponto (do exercício do perdão), talvez seja sinal de que algo vá errado com o processo. Talvez ainda falte um chãozinho pra percorrer até que se sinta aliviado, pleno.

Todos nós temos monstros íntimos com os quais não gostamos de bulir.

Muitos devem ser os casos em que os monstros em si sejam até desconhecidos, a pessoa talvez lide apenas com as consequências ou, na forma que ele reflete no comportamento, desconhecendo a origem desses traços e características.

Vivo momento mágico. Num passado próximo, minhas perspectivas para o futuro eram tétricas, terríveis. Nada sabia a meu respeito ainda, sobrevivia intuitivamente, como um animalzinho.

Mesmo no mais profundo limbo, já era dotado de uma coisa que passei a chamar de “calma estranha”. Um estado de espírito que sempre possuí e que me induzia à uma certeza: a de que tudo iria se arrumar.

Essa “calma estranha” se transformou numa fé inabalável quando, levado pelos meios aos quais tive acesso, de me conhecer, de amadurecer “a pulso”, é bem verdade.

Os tratamentos medicamentoso e psicoterapêutico aliados à espiritualização, aos quais sempre me dediquei com muita seriedade, vêm hoje, juntos, surtindo efeito. E que efeito maravilhoso.

O tratamento é muito válido. Se conhecer é “enfrentar os bichos”. Eles só assustam quando deles ouvimos
só o “rugido”. Isso é, quando de nossos grilos só conhecemos os sinais de que existem e suas consequências. Quando não há sobre eles mais mistério algum, tornam-se “bichinhos bonitinhos” ou
“bichinhos estranhos”, deixam de assustar e de influenciarnos tanto.

Aprendemos a conviver com o que ou com quem quer que seja. “Bem vindo ao mundo adulto!”, diria minha terapeuta.

Sei bem que “alta da terapia” talvez seja uma coisa que eu nunca venha a conhecer. Quer saber? Acho isso ótimo. O simples fato de existir um recurso para nos auxiliar é coisa que me deixa muito feliz. Isso talvez indique o quanto ainda estou no começo do meu processo de autoconhecimento.

Sei a meu respeito o suficiente para encarar a vida olho no olho. Se ela exigir de mim que eu esteja com “a faca nos dentes”, ela que se prepare!

Sei que posso ser bom em qualquer coisa que eu resolva fazer, é simples: sinto-me capaz e confiante, sei que pode parecer pouco… não é.

Talvez um dia eu escreva sobre como era viver intuitivamente, desconhecendo a mim e a tudo que me cercava, as coisas que passavam pela minha cabeça, minhas fraquezas, certezas e incertezas.

Sinto grande satisfação de poder compartilhar sobre o que ocorre hoje. Acredito na utilidade deste depoimento.

Acredito que muitas pessoas poderiam tirar proveito da psicoterapia e da espiritualização e que, não o fazem pelo simples fato de desconhecer algum caso de perto ou, por puro preconceito mesmo.

Só elas perdem com esta postura.

Agradeço o tempo dedicado a essa leitura. São só reflexões de um cara que renasceu.

Uma Viagem, Um Perrengue

Somos uma família pernambucana, e desde pequeno me acostumei com as viagens longas nas quais atravessávamos o país para rever a terra natal. Sou nascido em Campo Grande, porém, alfabetizado, e com um pé no velho e bom Recife.

Era muito comum que ao chegar o período das férias meu pai reunisse a família inteira dentro da velha Veraneio e, todos juntos, atravessávamos o país numa aventura de três dias e três noites pelas estradas do país atravessado Estado por Estado da Federação até chegar no nosso destino: Recife! Terra natal de minha mãe e do resto e de boa parte da família.

Ocorre que por vezes as crianças, meus irmãos e eu, eram “despachados”, via aérea, o que era um luxo, rápido e dessas viagens tenho algumas histórias reservadas para contar num momento oportuno, dessa vez é ocasião de discorrer sobre determinado “despacho” via terrestre, de ônibus mesmo, no qual o personagem principal é este que lhes escreve no momento.

O fato descrito deu-se nos anos 80, por volta 1984. O processo para se “despachar” um menor de idade àquela época era bem simples: bastava que os pais levassem a Certidão de Nascimento do menor no Posto de Atendimento da Delegacia de Menores que funcionava na Rodoviária e fazia-se uma Autorização de Viagem Desacompanhado, nessa Autorização constava o nome da pessoa que estava autorizada a fazer o “desembarque” do referido menor no seu destino. Não sei como isso funciona hoje, no meu tempo de menor era simples assim. Com isso feito o menor viajava livremente.

Fim das férias, eu retornava pra casa, Campo GRande. Dois dias de descanso no Rio de Janeiro no apartamento do meu avô Luizão, pai de meu pai.

Todo trajeto seria cumprido de ônibus. Não! Nada de ônibus leito. O mais confortável, era o “comercial”, pé duro. Como dizia meu avô Ruy, pai minha mãe, “calor humano neto!”.

Não sei se ele já havia viajado num ônibus comercial, mas, descrevia com exatidão o dito cujo.

A primeira parte da viagem era a mais difícil, Recife/Rio de Janeiro. Dois dias e duas noites inteiras dentro do ônibus com 48 lugares para pessoas sentadas que, fazia uma parada de quatro em quatro, vez por outra três em três horas para higiene pessoas e alimentação.

Para uma viagem assim, não se embarca com pouco dinheiro, tem que ter boa grana para a alimentação, uma grana para uma emergência, um trocado para uma comprinha lá no destino, etc. e tal. Foi assim que minha família me proveu e, fez todas aquelas recomendações de praxe: “não coloque todo dinheiro no mesmo bolso”, “não tire todo dinheiro da carteira na frente de dos estranhos”, “cuidado com o dinheiro”, etc., e apesar de todas as recomendações…

Mal haviavíamos saído de Recife, e ônibus faz a primeira parada. Estávamos na região metropolitana, era a primeira parada de uma infinidade delas numa viagem que se estenderia por dois dias e duas noites inteiras.

O ônibus estava lotado. Não havia lugar vago. Eram famílias de retirantes, todos muito pobres, algumas famílias contavam até seis integrantes, o casal e mais quatro filhos e apenas os pais tinham passagens, isto é, seus filhos perambulavam pelo corredor o tempo todo.

Choro de criança e brigas já se faziam em alto e bom som, aquele sotaque característico do sertanejo, ao mesmo tempo gente bem humorada já ansiava por chegar ao Rio de Janeiro. Rever os parentes, tentar um trabalho, uma vida nova. Um ambiente inesquecível. Uma torre de Babel, a nossa torre de Babel.

No momento que o ônibus para ali, entra um funcionário do posto ou lanchonete e nos faz um alerta: “Não se aproximem do canto esquerdo do posto! Estão vendo aquela aglomeração lá no canto? São golpistas! Estão fazendo jogo de azar, estão depenando os desavisados, não se aproximem!”.

Fosse hoje, com um aviso daqueles, a viagem apenas começando, eu não desceria do ônibus. Mas eu tinha 13 anos. Era novinho, tinha necessidade de descer em todas as paradas e comer um misto quente e uma coca cola, no mínimo, foi o que fiz. Tivesse ficado, nisso eu não teria o que escrever agora.

Pois bem, olhei aquela aglomeração lá no canto esquerdo, as pessoas estavam agitadas, a coisa me pareceu interessante. Minhas pernas foram como que me levando por conta própria, passo a passo, dirigindo-me até lá. Tínhamos quarenta e cinco minutos, era hora de jantar, pronto cheguei.

O jogo consistia no seguinte: uma pessoa com um caixote servindo tabuleiro, manipula três formas de empadinhas e, sob uma delas, esconde uma bolinha. Ele fica entrepassando entre uma e outra, mudando de lugar as três de modo que se o jogador não observar atentamente ele não sabe mais sob qual das três formas de empada está escondida a bolinha.

Fiquei observando o jogo e vi pessoas perdendo e vi que eu no lugar delas teria ganhado todas, todas! Meu raciocínio foi lógico, vou dobrar meu dinheiro, uma vez que o rapaz aposta a 2X1! Eu nem sabia, mas ao raciocinar dessa forma já havia caído no golpe…

Fui para a banca do homem que fazia o jogo, o lugar era muito disputado. Esgueire-me entre os “interessados” em volta dele. Quando chegou minha vez agi com “cautela” no primeiro jogo para “testar” e, “ganhei”, é óbvio.

Daí como nos desenhos animados, com as cifras rodando nas minhas pupilas como se fossem painel de caça niqueis.

Num impulso, coloquei nas mãos do “rapaz” todo, todo meu dinheiro, e fixei os olhos na forma em que ele houvera escondido a bolinha, e ele começou o balé das forminhas, troca de um lado para o outro, e vira, e mexe, quando de repente, um estranho ao meu lado, me cutuca e me faz uma pergunta qualquer. Por um segundo faz com que eu tire o olho da dança das forminhas…

É claro que era combinado entre eles. Fazia ele parte do grupo dos golpistas aquele que chamara minha atenção.

Naquele momento que tirei os olhos para atendê-lo, talvez o golpista principal num ato rápido tenha tirado a bolinha do tabuleiro e, quando voltei a atenção para o tabuleiro… bingo! Eu estava liso.Havia perdido todo meu dinheiro para os golpistas!

Quando me dei conta do golpe, senti o corpo todo formigar; o chão me faltou; no caminho de volta para o ônibus, era como se não houvesse nada sob meus pés. Um ruído como se houvessem milhares de cigarras fazendo barulho dentro de minha cabeça, uma sensação horrorosa.

Fiquei na minha poltrona em choque por horas. Lembro-me do ônibus entrar e sair de duas paradas
seguidas e eu, imóvel no mais absoluto silêncio. Olhando para o mesmo ponto fixo. Cristalizado, é o
termo ideal.

Só que a fome vai apertando e eu tinha que dar um jeito nisso. Logo descongelei e numa parada tive uma ideia: “vou comer o que os outros não querem comer e jogam fora!”. Dali em diante não passei mais aperto. Pelo menos não morri nem desmaiei de fome. Afinal, teria que o comer por dois dias, meus companheiros de viagem já tinham bocas demais para alimentar e o faziam com visível dificuldade, eu podia me virar do meu jeito.

Foi o que fiz. Em todas as paradas de ônibus tem um lugar onde há um vendedor de água de coco. Muita gente apenas bebe a água e não come a polpa, eu, que sempre apreciei a polpa, e sempre fui “um sem vergonha”, chegava nesses lugares, ia direto no cesto onde eram jogados os cocos já consumidos, escolhia os que tinham as polpas mais carnudas e pedia pro vendedor abri para que eu pudesse comer.

Explicava minha situação, e sem drama, vergonha ou vitimização. Me alimentei durante a viagem comendo assim, bebendo água das torneiras dos banheiros, lá fui eu atravessando o país comendo coco do lixo, sem problema algum.

A viagem estava terminando, quando ao chegar em Petrópolis – RJ. havia descido uma barreira na serra, resultado foi que teríamos que fazer uma volta para entrar na cidade do Rio de Janeiro pela cidade de Niterói, pela Região dos Lagos. O deslizamento de terras estenderia a viagem em algumas horas. Foi aí que um dos companheiros de viagem percebeu que meu comportamento estava fora do padrão dos demais. E saiu-se com essa:

“Ô Mato Grosso, porque é que você some nas refeições? Pra onde é que tu vai menino? Você não come não menino? Óia só suas olheiras rapaz! Pode falar!!”

Foi então que eu contei minha história para eles.

Foi um rebuliço! Ficaram bravos de eu ter escondido e fizeram o motorista parar, no primeiro restaurante que surgiu na estrada.

Logo, a história se espalhou pelo ônibus e alguém pagou uma coca cola de um litro e dois pratos feitos só para eu comer, todos os passageiros do ônibus fizeram uma plateia em volta da mesa onde só eu estava sentado. Acho que foi a melhor refeição que fiz na minha vida toda. E com plateia aos gritos, assovios
e aplausos.

Ê, vida…

Ê, vida.

Padrinhos Escolhidos Pelo Afilhado – Poucos e Bons

Hoje é dia de homenagear meus padrinhos. “Tia” Sônia e “Tio” Neto.

Pedi pros dois serem meus padrinhos, e eles aceitaram, cobrindo a mim de honra e orgulho.

Eu era uma criança com muita dificuldade na escola. Os professores encontravam grande dificuldades para me alfabetizar.

Hiperativo, com problemas de coordenação motora, déficit de atenção, um compêndio de psicologia infantil eu diria. Foi natural que na escola tudo fosse muito difícil para mim.

Fui alfabetizado no Recife, no meu retorno do exílio pernambucano, fui matriculado no CEI – Centro de Educação Integrada, em 1979.

As dificuldades eram muitas, foi então que a professora que dava aulas de Português e Religião (não vou citar o nome por motivos óbvios), diante do meu péssimo desempenho nas duas matérias por ela ministradas, fez-me a seguinte “sugestão”: “João, se você se matricular na catequese da paróquia tal, e em seguida se batizar, eu ajudo você a passar de ano”…

Eu, tinha muitas dificuldades, é bem verdade, mas de burro, não tinha nada. Aceitei prontamente a
“sugestão”.

No dia seguinte, lá estava eu de bicicleta na porta da tal igreja me matriculando na tal “catequese”. Os obstáculos por mim enfrentados no dia-a-dia do escola, levaram-me a lançar mão de recurso muito utilizado por quase todos que têm os mesmos problemas nos estudos: aulas particulares.

Minha mãe recebeu, não se lembra de quem, a indicação de uma professora particular que havia chegado de Corumbá, Sonia de Barros, combinou com essa professora minhas aulas particulares. Feito.

Eu era praticamente um moleque de rua. Criado solto, não gostava de nada que alterasse minha rotina. É óbvio que não gostava de aulas particulares.

As idas para a casa de Tia Sônia são um capítulo à parte. Conta minha mãe, eu me lembro bem, é duro, mas é a mais pura verdade, que eu ia bradando colérico durante todo o caminho até o portão da casa de
Tia Sônia. proferia os mais cabeludos palavrões, os mais feios que eu conhecia, dizia que “não queria ir para aquele lugar de jeito nenhum!”, que “odiava aquele lugar!”.

Mas, ao chegar, limpava as lágrimas, descia do carro sereno, e, ia para a aula tranquilamente. É fácil de entender. Lá eu era acolhido com afeto, carinho, todo o conhecimento que eu não compreendia no colégio.

Tia Sônia sabia o jeito de fazer eu compreender, matemática, geografia, português, estudos sociais, tudo, se não me engano exceto inglês, havia outros alunos, vários que compartilhavam a atenção de Tia Sônia.

Era um ensino diferenciado, individualizado, ela falava com cada um de nós, a língua de cada um, com seu sotaque de corumbaense inconfundível.

Fui fazendo minhas aulas na catequese e o curso foi chegando ao fim, eu tinha que escolher padrinhos
para meu batizado, não tive dúvidas: chamei Tia Sônia, minha professora e Tio Neto, seu marido, para
serem meus padrinhos.

Ao fazer essa escolha, eu estava, sem ter uma boa noção disso, unindo nossas famílias, se já estávamos unidos por um laço de consideração. Dali em diante estaríamos unidos por um laço sagrado.

Já naquele tempo, fiz um trocadilho com Suzana e Rozana, dizendo a elas que dali em diante elas seriam minhas “irmãndrinhas” e, de fato são como irmãs que eu não tive pois, convivemos por anos a fio. Tive a oportunidade de fazer com eles uma viagem para a fazenda deles no Pantanal, onde passamos dias maravilhosos, inesquecíveis e, são, as duas, mulheres que admiro e respeito muito.

Quero encerrar essa homenagem deixando um forte abraço para meu padrinho, homem do pantanal, homem de fibra, correto e gente boa demais, forte abraço meu padrinho, qualquer hora chego aí para um tererê.

Fiquemos todos com Deus.

Jô, Querida, Você Inspira!

Há alguns dias já sabia o que iria escrever neste momento, só estava esperando tempo para cumprir a tarefa.

Faço hoje homenagem a uma pessoa muito especial: Judith Araújo Garcia, nossa querida Jô. Mulher de fibra, otimista, alto-astral, forte, atleta, sempre disposta, alegre e, amiga.

Conheci a Jô ainda criança, meu pai é médico, e Jô era uma das enfermeiras de sua clínica.

Desde menino eu observava que ela se destacava entre as demais. Chamava minha atenção seu otimismo, alegria de viver e a forma de encarar a vida.

Observei a categoria com que ela fez as “limonadas” quando a vida lhe deu limões. Baqueou, mas nunca permaneceu lá em baixo. Sempre se levantou rapidamente e voltou ao seu estado normal, íntegra.

Agradeço a você Jô, por tudo que me ensinou. Sem nunca ter me pegado pela mão para me dar uma lição do tipo: “Olha João, agora vou lhe ensinar uma coisa…”, ou “João, é assim que se faz…”.

Todo o tempo que estive ao seu lado, cada momento, foi momento de aprendizado. Observando você, aprendi a ter disposição e não me render à preguiça; a estar sempre de mãos dadas com a alegria; a ter em mente que se temos que ir, iremos, se não de carro, de ônibus, se não de ônibus, a pé mesmo, seja lá onde for!

Quantas e quantas vezes eu vi a Jô sair de uma jornada de 24 horas (plantão), vestir uma roupa de ginástica e partir da Vila Célia, onde ficava a Clínica, para ir embora a pé mesmo! Ela morava longe da clínica, caminhava da Vila Célia até o Bairro Santo Antônio. (!!)

Por tudo isso, querida Jô, muito, muito obrigado.

Eu poderia simplesmente ter lhe escrito e enviado pela Silvinha, deixando esse agradecimento só entre nós, mas em primeiro lugar, acho que você merece uma homenagem pública, em segundo lugar, creio que seu exemplo, sua atitude deva ser divulgada para inspirar mais e mais pessoas, assim como inspira a mim.

Jô querida fique com Deus, obrigado por fazer parte do meu alicerce!

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo
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